ß - crítica
Jorge Bertocchini passa por assassinos todo o dia...
Já pensou que, enquanto anda descansado pelas artérias da sua cidade, há centenas de almas assassinas prontas a contabilizar mais uma vítima ao seu extenso rol?
Numa tarde descansada passada a atravessar ruas e caminhos perdidos numa cidade como a minha, o Porto, podemo-nos aperceber da quantidade de humanos (serão?) que tentam desesperadamente mudar completamente de estilo de vida, procurando a fugaz glória de uns minutinhos indispensáveis ao volante e, quem sabe, sem protagonizar qualquer acidente.
Apesar de ser reconhecida alguma ingenuidade em grande parte dos condutores-que-parecem-de-fim-de-semana-mas-que-afinal-também-conduzem-nos-dias-de-trabalho, por vezes há incríveis manobras de má condução, que em muitas ocasiões colocam em risco a vida de qualquer trabalhador honesto e sem ligações a qualquer grupo ocupado com o tráfico de droga na região.
No entanto, mesmo que as pessoas reconheçam os assassinos por face, nome, profissão ou cadastro criminal, qualquer um deles será perfeitamente invulnerável a toda e qualquer forma de reconhecimento por actos cometidos em prol da mesma pessoa.
Passo a explicar:
Imagine um Fiat Punto (sem conotações comerciais) a avançar desenfreado pela Avenida dos Aliados, às sete e meia de uma quarta-feira à tarde, esperando chegar a casa a tempo de ver o início do jogo da Liga dos Campeões que começa, impreterivelmente, às 19:45, hora standard para jogos de futebol por essa Europa fora. Ao longe, na passadeira, observa que vai a passar a velha parteira que o/a deu à luz, lenta, vagarosa, pronta para embarcar em mais uma fastidiosa e chata viagem de autocarro até casa, só para chegar lá e regressar à chatice da sua vida suburbana. O que passa neste momento pela cabeça do facínora atrás da circunferência direccional? Temos 3 opções:
a) "Vou parar, dou boleia à mulher, porque afinal, se ela não estivesse lá, não estava cá eu...e o jogo pode-se gravar...se calhar nem chego a casa para jantar, mas ela merece..."
b) "Oh, tinha logo de vir assim devagarinho...oh meu Deus...atravesse lá a passadeira...o jogo está quase a começar e estou cheio de fome..."
c) "Raios partam o raio da velha...SAI DA FRENTE, CARCAÇA!!! DIGA??? A SUA MÃE!!! APRENDA A ANDAR NA RUA OU ENTÃO FIQUE EM CASA A CURAR AS ARTROSES!"
Amizades permanentes? Nada disso...os motoristas passam numa correria louca para fazer o que quer que seja, provavelmente muito mais importante que os pequenos "affairs" da vida quotidiana do pobre peão.
Falo de experiência. Também me sento ocasionalmente no banco da esquerda do carro e guio pelas avenidas dessa e de outras cidades. O que não perco é a noção de que sou apenas mais um num enorme universo que se rege por regras e normas, e que obedece a certos padróes de educação que alguns parecem ignorar propositadamente.
Que se matem, quero lá saber...mas nem pensem sequer em amolgar o meu saquinho de compras...
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