ß - crítica
Ricardo Ferreira, dentro do autocarro a pensar cá para fora...
Ah, o fascínio de andar de autocarro! Quem, como eu, usa esta forma de locomoção diariamente sabe do que estou a falar! (Esta frase soa-me familiar). Para mim é inegável que o verdadeiro país real se encontra nos autocarros e nos demais transportes públicos.
Se alguma vez me encontrar envolvido em alguma campanha eleitoral política, o primeiro sítio onde eu aconselharia um contacto directo não seria uma feira mas sim um autocarro. As vantagens são por demais evidentes:
- Hipótese quase nula de fuga do eleitorado (a não ser que alguém puxe o comando de emergência da porta traseira para escapar. Não ria, já vi um toxicodependente fazer isso para fugir a um fiscal).
- Sobrelotação dos autocarros. Devido a este factor, o contacto directo superioriza-se àquele que se pode encontrar nas feiras e zonas amplas, sendo assim possível passar a mensagem de uma forma mais eficaz e as mãos pelo corpo da voluptuosa adolescente à sua frente alegando ter sido empurrado.
Apenas dois exemplos que serviram para reforçar a ideia apresentada no primeiro parágrafo. É usualmente aceite que é o interior do país o expoente máximo do Portugal do antigamente mas permita-me, caro leitor, que o elucide quanto a esse assunto.
Repare:
A ideia vulgarmente transmitida é a de que a parcela populacional residente nos grandes centros urbanos é a mais culta, mais evoluída, com uma vivência em sociedade mais pacata e solidária.
Puro engano! Haverá alguma alma que ainda não tenha experenciado na primeira ou terceira pessoa episódios absolutamente caricatos ou até mesmo absurdos? Se o dedicado leitor é um utente assíduo dos transportes públicos e ainda se encontra virgem nesta matéria aceite desde já os meus mais sinceros parabéns mas deixe que lhe diga que pertence a uma minoria.
Que episódios, questionará você? Va lá, você sabe do que estou a falar (parte II)!
Desde a célebre discussão sobre quem tem direito a entrar primeiro no autocarro (discussão essa que chega a atingir níveis decibélicos apenas permitidos e ao alcance de jactos supersónicos), até ao tão controverso acto de ceder o lugar a uma pessoa idosa e/ou grávida, passando por quezílias sobre senhas adulteradas e por lamentos e insultos quando o jovem adolescente decide transformar o seu walkman numa potente alta-fidelidade e a audiência reclama não pelo volume, mas sim pela (pouca) qualidade das ondas sonoras que emanam da engenhoca "made in Japan".
Ainda não se encontra convencido da minha afirmação inicial? Muito bem, vamos dissecar apenas o primeiro destes diferentes cenários. Como disse alguém, comecemos pelo princípio, ou seja, pela entrada no veículo.
- 8 horas da manhã, Dona Clotilde, 57 anos, dona de casa de profissão, mãe de quatro filhos e avó de três rapazes, decide ir passear até à cidade.
Para tal dirige-se à paragem de autocarro mais próxima de sua casa. Ao chegar ao local depara-se com a enormidade da massa humana que aguarda o transporte.
O raciocínio desta dona de casa toma então contornos de uma simplicidade chocante! Onde outro ser humano tremia, esta mulher triunfa!
De sorriso maroto, disfarçadamente estampado na sua face enrugada, Dona Clotilde avança de maneira audaz e Davidiana não para o fim, mas para o início da, nesta altura, ainda mais alongada fila. Sim, Dona Clotilde tem todo o direito de o fazer! Afinal de contas ela trabalhou arduamente e durante várias décadas em casa, tentando conciliar as narrativas das múltiplas novelas de origem no sul do continente americano sendo posteriormente dobradas num país mais central do mesmo continente. Já para não falar nas dores musculares e desgastes ósseos como consequência directa dos intermináveis cocktails de "time-sharing" e "tupperware", liquidações da "Feira dos Tecidos" e outros eventos inevitáveis na vida de uma cidadã activa. Como ficar indiferente à dor e provações passadas por este ser humano?
Então, eis que o transporte finalmente se acerca da paragem e Dona Clotilde sobe decididamente para o referido autocarro sendo alvo de todo um rol enciclopédico de injúrias, ameaças e convites duvidosos mas, mais uma vez, Dona Clotilde é bem sucedida nos seus intentos, os quais, realce-se mais uma vez, pensa serem os mais nobres possíveis.
Muito se podia escrever acerca dos outros episódios acima mencionados mas penso que seriam redundantes visto a mentalidade portuguesa ter ficado bem expressa nas linhas anteriores.
Assim amanhece o Portugal de hoje permanecendo no país de outrora...
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