Cidade
de
RIO TINTO

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Nota do autor - Esta página é mantida por um estudante universitário sem qualquer apoio oficial. Este facto condiciona bastante o design.


O objectivo desta página é dar a conhecer ao mundo a Cidade de Rio Tinto, o seu passado riquíssimo e os lugares mais pitorescos. Foi um magnífico trabalho de investigação levado a cabo pela revista Actualidades Concelhias à qual tive acesso. O seu conteúdo encontra-se agora On-Line.


  • Introdução
  • Porquê Rio Tinto?
  • Dois Lugares Típicos
  • Bibliotecas
  • Os Santos de Rio Tinto
  • As Festas de Rio Tinto
  • Percursos Históricos
  • As Quintas de Rio Tinto
  • Quinta das Freiras - espaço cultural a defender
  • A Importância do Cavalo de Ferro
  • Rio Tinto - no eixo das Filigranas




    RIO TINTO: Uma história antiga


    Povoação anterior à nacionalidade, Rio Tinto é uma das zonas mais características do Grande Porto. O primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, foi um dos protectores daquela que é a Vila mais populosa do concelho de Gondomar. A pujança desta terra está também ligada ao Convento de Agostinhas, extinto no século XVI.


    Rio Tinto, freguesia do concelho e comarca de Gondomar, distrito e diocese do Porto, é a maior e mais urbanizada freguesia com uma população de considerável peso na área metropolitana do Porto. Fica a 7 Km a noroeste da sede de concelho (Gondomar) e 3 Km a nordeste da sede de distrito (Porto), sendo atravessada no sentido norte-sul por um ribeiro que originou o topónimo e desagua em Campanhã. A sua indústria é variada, destacando-se as fábricas de fiação e tecidos, papel, amido, mobiliário e botões, o que não invalida apresentar uma paisagem de campos verdejantes e densas bouças de pinheiros.


    Um documento do século XII refere-se ao lugar como sendo vizinho de Castrum Amai, em território portucalense. Nesse século a terra terá pertencido ao alcaide Mendo Estrema, rico defensor de Évora por ocasião da Grande Invasão Mourisca em 1191. Povoação anterior à nacionalidade, no antigo julgado da Maia, por lá existiu um convento de Agostinhas, fundado em 1062. D. Afonso Henriques protegeu-o dando-lhe foro de couto a 20 de Maio de 1141, foro esse renovado pelos monarcas posteriores. D. Afonso IV acabou por conceder à abadessa a jurisdição do couto. Este mosteiro, do qual infelizmente nada resta, foi extinto a 6 de Janeiro de 1535, ficando com os seus privilégios o mosteiro beneditino de Avé Maria no Porto. Os bens do mosteiro de Rio Tinto e a importância da comunidade foram sempre de grande relevância, apesar da enorme quantidade de membros da família patronal de que dependiam que em 1311 era de 515. É muito provável que este mosteiro tenha fornecido o principal contingente de religiosas para a abadia de S. Bento da Avé Maria do Porto, que começou a ser construída em 1518 iniciando a vida regular em 1535, com as religiosas do mosteiro de Rio Tinto, Tuías, Sandim e Tarouquela. Com a criação deste novo mosteiro, o de Rio Tinto passou a constituir uma dependência do anteriormente referido. O couto de 20 de Maio de 1141 englobava as seguintes aldeias: Vila Cova, Ranha, Rebordãos, Quintã, Triana, Portela, Areosa, Pinheiro, Gesta, Brasoleiro, Forno, Santegãos, Carreiros, Medancelhe, Casal, Lourinha, Sevilhães, Perlinhas, Ferraria, Vendas Velhas, Vendas Novas, Cavada nova, São Sebastão, Vale de Flores, Soutelo, Mendalho, Amial e Mosteiro. Rio Tinto foi sede de concelho de 26 de Junho de 1867 a 14 de Janeiro de 1868 e era composto por 7 freguesias. A meio da década passada voltou a ser vila, agora com duas freguesias - Rio Tinto e Baguim do Monte.




    Porquê Rio Tinto?


    Historicamente, Rio Tinto é um dos lugares assinalados nas guerras entre cristãos e árabes. Diz a tradição que o seu nome advém do tingir com sangue o ribeiro que por aqui passa, o qual hoje é atravessado pela via férrea. O ribeiro vai desaguar no Douro, abaixo do sítio da Formiga. Diz a lenda que foi cruel a batalha entre as hostes do conde Hermenegildo então situadas no Porto e os mouros que pretendiam assenhorar-se da cidade. Do sangue derramado da contenda nas águas do ribeiro ficou o nome de Rio Tinto. O rio nasce em fontelhas no lugar de Mão-Poderosa e não tendo um grande caudal, chega a secar no mês de Setembro. Os peixes mais vulgares são os Escalos e a Boga.





    Dois Lugares Típicos


    O lugar do Mosteiro e o Monte da Burra são dois locais característicos de Rio Tinto. O lugar do Mosteiro está obviamente ligado à existência de um mosteiro de freiras Agostinhas já atrás referido. Foi fundado em 1602 por D. Diogo Trutesendo e seus filhos, que o dotaram com grandes rendas e como padroado e duas igrejas. As origens do mosteiro são obscuras por se ignorar se se deve identificar com o de Santa Maria de Campanhã fundado pelos avós do abade Gomes Geremias antes de 1058, como sugerem documentos de 1077, 1078 e 1097. Esta questão depende da autenticidade de um documento datado de 1062 e transcrito por Leão de S. Tomás, sendo este aquele que se apresenta como acto de fundação do mosteiro de Rio Tinto. todavia se acaso foram originalmente distintos, o primeiro deve ter caído sob alçada dos fundadores do segundo. Habitado por uma comunidade mista ainda em 1141, passou a ser um mosteiro exclusivamente feminino antes de 1162, integrando-se no movimento religioso beneditino. O lugar do Monte da Burra deve o seu nome também à época das guerras. Local de acampamento para os soldados, o Monte da Burra é assim designado porque os burros lá eram enterrados.





    Bibliotecas


    Em Rio Tinto o escritor Guedes de Oliveira deixou uma preciosa biblioteca de 6.000 volumes que incidem predominantemente em temáticas relacionadas com a arte. Neste espólio podemos encontrar edições antigas do século XVII. Livros de ciência, belas artes, economia, filosofia, agricultura, além de colecções dos melhores livros de literatura nacional e estrangeira e também de teatro fazem também parte desta herança que o escritor Guedes de Oliveira nos deixou. Destaca-se ainda um conjunto de interessantes colecções completas de jornais de caricaturas como A Paródia, de Bordalo Pinheiro, O Mau e outros. De referir igualmente nesta biblioteca algumas edições de luxo das quais destacamos a de Os Lusíadas. O padre José Ferreira das Neves possuía uma biblioteca com cerca de 2.000 volumes, a maior parte dos quais com origem na livraria do Padre Manuel da Silva Cavadas, o qual havia herdado uma quantidade assinalável de livros de medicina. A biblioteca completa-se com literatura sobre direito, religião, filosofia, romances e diversos dicionários de várias línguas.





    Os Santos de Rio Tinto


    Sendo S. Cristóvão padroeiro, o Santo das devoções é S. Bento (vulgo das pêras) a quem fazem em Julho, uma das maiores romarias dos arredores do Porto - (S. Cristóvão é associadoà festa, mas fica empalidecido). Antes da "normalização", ao S. Bento ia tudo.

    Os caminhos de ferro organizavam comboios extraordinários, a partir da Estação de S. Bento (100 Réis, na 3ª com regresso). "Para o fogo preso sairá do Porto, no domingo, à noite, um comboio às 8 horas, o qual regressará de Rio Tinto, à meia-noite.Na segunda-feira, outros 12 extraordinários farão a ligação..." ("A Palavra", de 7/7/1887, citado por Serafim Gesta, 1980).

    E cantava-se:

    O Sao Bento é das Pêras,
    O S. Lázaro dos anéis,
    as Marias do Antónios,
    e as Anas dos Manéis!

    O "Jornal do Porto" de 12/7/1860 relatava: "a multidão que à tarde desfilava pela estrada era numerosa e imenso o pó. Os quadrúpedes e toda a casta de veículos que por aí há, nada faltou (...). No dia seguinte um homem e uma mulher, tentaram roubar um cordão a uma lavradeira. Eram ratoneiros do Porto, mas foram presos..."(idem). E a "Ilustração Portuguesa" de 27/7/1914: "...houve público à farta, principalmente eléctricos e comboios, toda a tarde, pejados de gente, além da que para o local se dirigia a pé, em automóveis e Chars-à-bancs. Desde a Estação do Caminho de Ferro à Igreja (...) pelos campos e terrenos marginais, no largo enorme que circunda o cemitério e sobre o adro espaçoso, a multidão formigava, comprimia-se, acotovelava-se, num redemoinho imenso..." (ibid). Em 1758, nesta festa do Patriarca vendia-se "muita louça de prado de Braga".





    As Festas de Rio Tinto


    A origem das festas e romarias remonta à ancestralidade. Como já vimos as romarias mais populares da Cidade de Rio Tinto são dedicadas a S. Bento e S. Cristóvão. O S. Bento das Pêras realiza-se a 11 de Julho e está associado aos cravos, sendo ainda considerado como o advogado das coisas impossíveis. S. Cristóvão é o santo protector dos automobilistas (quem não deparou já com as representações em miniatura deste Santo colocadas no tablier duma qualquer viatura?). A festa em honra de S. Cristóvão não tem data fixa, uma vez que se efectua sempre no primeiro domingo após as festividades de S. Bento das Pêras. No mês de Agosto, Rio Tinto festeja também o Sr. dos Aflitos. Claro que estas festas conjugam as componentes profana e religiosa do povo. Assim, não faltam os arraiais, os ranchos folclóricos, o fogo de artifício e, evidentemente, as barracas de comes e bebes. Quanto às festas cíclicas, temos as vindimas, a matança do porco e as desfolhadas. São trabalhos de grupo com carácter de entreajuda e uma forte componente lúdica que, entretanto, tem vindo a perder adeptos. Refira-se, para finalizar este capítulo das festas, uma peculiaridade de Rio tinto nas comemorações do Carnaval : " O enterro do João". O João é um boneco feito de palha, com uns trapos a servir de vestes e é usado como meio de crítica ou chacota enquanto percorre as ruas até à chegada ao local de enterro onde lhe lançam fogo culminando desta forma um percurso onde a alegria é a tónica principal.





    Percursos Históricos


    A Freguesia de Rio Tinto está situada num "comprido valle, que principia abaixo da Igreja, e finda na aldea de Baguim do Monte" A Igreja "antiga de hua só Nave, tem coatro Altares"; imponente, foi reconstruída em 1830 e remodelada em 1933. No lado poente há uma legenda no granito: Foi feita no ano de 1768 sendo abbadeça a Madre D. Thereza Maria da Silva. A sua grandiosidade contrasta com as restantes Igrejas do concelho e, motivo de orgulho dos crentes assíduos do templo é, sem dúvida, o órgão da Igreja. As torres são majestosas e o carrilhão com 17 sinos e quatro toneladas não lhes fica atrás. A Igreja actual, grande, de uma só nave e com oito altares, tem um corpo espaçoso com o seu coro e um pequeno órgão. A Capela-Mor é também espaçosa, e o seu pavimento é o mais elevado do corpo da Igreja. é no altar-mor que se encontra um sacrário típico com duas características: 1) quatro portas (três são aparentes) com painéis em alto relevo alusivos à paixão e ressurreição de Cristo; 2) um Giratório único na Península. Esta Igreja tem dois cemitérios e era no central, atrás da Casa dos Milagres, que se realizava a feira aos sábados. Numa das laterais da Igreja pode ver-se um painel da Santa Mafalda. Esta Princesa vinha várias vezes de Arouca ao Porto visitar e venerar a Nossa Senhora da Silva. Numa dessas vezes, voltando do seu convento, foi assaltada por uma febre aguda, acabando por falecer no ano de 1290 nesta freguesia de Rio Tinto na presença da Abadessa e algumas religiosas. O cadáver foi colocado sobre uma mula à rédea solta e daqui foi transportada, com toda a solenidade, para o célebre Mosteiro de Arouca, onde vivera setenta anos, e do qual saíra pouco antes, sem julgar que soasse no caminho a sua hora derradeira. Embora o Papa Pio VI concedesse autorização para se rezar missa a Santa Mafalda, não se pode considerar este indulto como uma beatificação.





    As Quintas de Rio Tinto


    A feição rural de Rio Tinto quebrou-se em Maio de 1875 com a inauguração da linha do Minho, seguida, em Julho, da linha do Douro até Penafiel. Seguindo a linha férrea, encontramos a Quinta da Lourinha, actualmente o Externato Camões, colégio que adaptou a casa para as suas instalações mantendo unicamente a fachada principal e uma parte do jardim. Na rua Quinta da Campaínha deparámos com uma quinta e capela do mesmo nome. A Quinta foi comprada ao Capitão Francisco da Silva Portela e lá existe um belíssimo oratório. Em 1765 os proprietários (D.F.S. Guimarães e esposa) pediram autorização para fazer a nova Capela da Nossa Senhora da Conceição. A Quinta da Campaínha possui um enorme portão que ostenta um brasão em pedra no formato de escudo, incluindo um leão, que simboliza a força, as vieirinhas, que provêm do nome da família, e a silva. Se se seguir por Perlinhas, descobre-se a Quinta do Felisberto, com um vasto espaço verde e uma casa de aspecto simples e bonito e onde se salienta uma imagem do Santo António de Perlinhas. Outrora a casa ficava à face da rua de forma a possibilitar às pessoas a veneração ao seu Santo, contudo essa tradição desapareceu quando a Quinta foi vedada. Continuando o percurso das Quintas e não muito longe da do Felisberto, em Mendalho de Baixo, avista-se um lavadouro que foi restaurado em 1961. A sua água provém duma mina. Logo a seguir temos uma fonte datada de 18 de Setembro de 1949 tendo sido restaurada em Novembro de 1982. A vista não se cansa nesta viagem e pelo caminho encontramos a Capela da Nossa Senhora do Amparo da Venda Nova. Da Venda Nova segue-se até à rua Infante D. Henrique onde se encontra a antiga fábrica têxtil de Cabanas. As suas instalações foram ocupadas por indústrias de outros ramos tendo-se mantido o exterior do edifício e a chaminé. De passagem na movimentada nacional nº15, dá-se, como que por acaso, com um espaço de autêntico sossego. Chama-se, hoje, a Quinta do Perdigão. Comprada por um emigrante regressado do Brasil, a Quinta do Perdição pertencia à Quinta das Freiras e ao Paçal da Igreja, sendo nessa altura conhecida por Quinta Pequena ou Quinta dos Muros e pertencendo à Quinta Grande da Venda Nova. Nesta quinta existem duas casas: uma que completa mais de trezentos e está desabitada. As suas portarias são trabalhadas e possui um casebre, outrora ocupado por bois e lenha, e uma capoeira que chegou aos nossos dias. Há ainda uma adega no piso inferior e que alberga alfaias agrícolas. A outra casa foi construída depois possuindo também as suas riquezas, como são o caso dos tectos em gamela e madeira, ou da cozinha com forno antigo. Nas suas traseiras, existe a Capela de S. Sebastião. Com um estilo muito simples, esta capela tem todavia uma característica muito especial. É que ela fica exactamente no meio da rua. Depois de S. Sebastião, voltámos à rua principal e descemos até vislumbrarmos a Quinta do Sá. Esta quinta foi construída em 1857 por um arquitecto espanhol regressado do Brasil, daí que a quinta tenha reminiscências relacionadas com a vida do viajante. Este, ao que parece, desejava projectar num espaço reduzido as inúmeras riquezas que o absorveram durante a sua experimentada vida. As figuras e imagens existentes em toda a quinta apresentam elementos de alguma maneira relacionados com os descobrimentos, como por exemplo, esculturas em concha e animais marinhos, portanto, denotando-se a presença do elemento marítimo. Detectam-se ainda outro tipo de esculturas e pormenores distintos dos acima referidos, como são os casos das esculturas gregas, das figuras abstractas, ou de peças de cariz oriental. Para concretizar a ideia deixada atrás, diga-se que por esta quinta existem peças dos quatro cantos do mundo, nomeadamente leões da África do Sul, as aves exóticas do Brasil e os pagodes chineses. A casa é duma beleza invulgar. Ostentando uma fachada solene, possui paineis alusivos a quadros bíblicos e vários conjuntos de azulejos. Ao lado da casa existe um lindíssimo mirante todo coberto de azulejos e o tecto revestido a painéis pintados à mão. A área mais ampla é ocupada pelos espaços verdes, ou seja, os jardins e as hortas. Os jardins são diferentes uns dos outros, existindo no entanto um ponto central que marca o eixo principal entre eles. Um dos jardins é rectilíneo, outro completamente sombrio, sombra essa que vai buscar às camélias, magnólias e outras árvores e plantas da quinta que tem ainda uma cascata rodeada por uma estufa e por um viveiro de pássaros. É, sem dúvida uma quinta de beleza invulgar. Logo a seguir á Quinta do Sá, aparece a pequena Capelinha do Calvário e, virando à direita pela chamada Avenida da Conduta, chega-se ao Lugar da Igreja. Lá, no Vale das Flores, está situado um Cruzeiro. É o Largo do Cruzeiro da Independência. Logo ali perto, temos o lavadouro com frontaria em granito e que foi restaurado na década passada. Ao fundo da rua do Mosteiro damos de caras com a Quinta das Freiras. É um espaço tremendamente bonito e de um verde abundante, amenizado por um tranquilo lago e outras águas que por lá correm.





    Quinta das Freiras - espaço cultural a defender


    Do Convento - a S. Cristóvão dedicado - fundado em 1602 e coutado em 1141 (Afonso Henriques) por 500 maravedis, nada resta. De Moreira, na Maia, se mudaram as freiras-donas beneditas em 1162 para aqui, onde "perseveraram em sua regular observÂncia", até que em 1535 passaram para o Mosteiro de S. Bento de Avé-Maria, no Porto. A Rainha Santa Mafalda (a de Arouca), filha de Sancho I, terá falecido em 1290 neste Mosteiro de que ficou a toponímia no lugar onde, no século XVIII, foi reedificada a Igreja de S. Bento. A avaliar pelo que permanece da fundura do rio, era sítio dado à contemplação e ao sossego. Do passado ficou outro topónimo: "Quinta das Freiras". O seu espaço arborizado é oportunidade única para o parque autárquico da Cidade se instalar, com uma posição priveligiada. Defendia em 1983 o "Grupo de Investigação Cultural", da Estrada Nova que deveriam ser declarados "os terrenos existentes à volta da quinta, como zona de protecção à mesma". E propunha para futuro daquela mancha verde (e nem lhe falta aminiatura do castelo granítico a atiçar a imaginação no bosque aventuroso): a plantação de um novo bosque; a transformação do lago num refúgio; a protecção de aves. A zona existente de coníferas seria ambiente de piqueniques e lazeres. e os equipamentos agrícolas da quinta (a casa do Lavrador, e os anexos da produção - como o lagar) seriam transformados em centro cultural documentando as raízes etnográficas do concelho. Projecto ambicioso? Nem por isso - entre nós estes voos batem nos muros do inacessível - é tão fácil!





    A Importância do Cavalo de Ferro


    Como já se disse, no ano de 1875 o caminho de ferro chega a Rio Tinto. O tráfego para o norte e as mercadorias de Gondomar passaram a ter aqui trânsito obrigatório. Foi a mudança. Em 1926 já a freguesia possuía quatro fábricas de tecidos, uma de briquetes e outra de álcool "movidas a vapor e electricidade". (Um exemplar do património industrial do grande Porto, pela concepção arquitectónica, a fachada, e a estrutura metáilca, é a antiga fábrica de fiação e tecelagem de Cabanas). Da estação saíam anualmente e na mesma época 15 000 toneladas de carvão (de S. Pedro da Cova), milho, mobília, sal e vinho, além de 31 000 passageiros. A implantação industrial cresceu atingindo agora cerca de 80 unidades de produção. E a estação . com painéis de azulejos a merecerem visita - continua referência cuja importância não esmoreceu. Ladeiam-se ruas de habitações e armazéns centenários. Para quem a conhece mal, Rio Tinto é dormitório de arrabalde. Injusta visão. Quem souber explorar alguns caminhos, encontrará seguramente sítios interessantes, alguns deles já aqui referidos, outros seguir-se-ão.





    Rio Tinto - No eixo das Filigranas


    A filigrana é uma técnica de ourivesaria destinada à execução de jóias em ouro e prata. Aparece desde remota antiguidade no território europeu, em simultâneo com afastadas culturas: Egipto, Assíria, Índia, etc. Quando os Árabes - exímios executantes - "entraram na Península, no século XVIII, já aqui vieram encontrar oficinas bem desenvolvidas desta nobre arte (...) Não é pois, a obra subtil de fio de ouro e prata, tão grandiosa, tão leve e , em rigor, barata e fácil, nem uma arte nacional como se julgou (...) nem lição da Índia ou da mourana. A sua longevidade na Península é bem maior, como a sua expansão mais dilatada" (Rocha Peixoto, 1908/1967). Como chegou ao território portugês e, concretamente a Gondomar? É ainda uma interrogação. As arrecadas encontradas em Laundos (Póvoa do Varzim) "dos últimos tempos da Idade do Ferro" estão próximas do espírito ornamental da filigrana. No entanto, se os ourives ibéricos "cedo conseguiram esticar o fio a martelo" (idem), terá sido em contacto com culturas estranhas que amadureceram uma concepção estética mais avançada. Quem os influenciou? Etruscos, Fenícios, Romanos? Haverá relação entre a existência de minas de ouro - ali ao lado - e a fixação dos filigraneiros em Gondomar? ("...depois da laboração das minas de Valongo e sua purificação pelos judeos residentes no Porto, apareceram as filigranas de Gondomar fabricadas inicialmente por alguns soldados romanos e logo coadjuvados por alguns aborígenes da sua amizade..." (Carlos Motta, 1981.) Eu não seria tão peremptório. Aliás, outro é o entendimento de Carlos Basto (1962), quando questiona: em que época "teriam surgido entre o Porto e Gondomar, os primeiros artífices da filigrana? Ignoramo-lo (...) parece viável recuá-la ao tempo em que se estabeleceram no litoral atlântico as colónias e feitorias fenícias". Qual o motivo da fixação da arte no Entre-Douro-e-Minho, num estilo próximo do indo-português? Estranhas e complexas influências, cruzamentos e analogias (ou coincidências) devem ter ocorrido para que, no eixo de Rio Tinto, S. Pedro da Cova, Fânzeres, S. Cosme, Valbom, e noutras freguesias se encontrasse a maior produção filigraneira do país. A tal respeito, Pedro Fazenda (1927) escreveu: "Gondomar guarda-a com o fio da vida das suas gerações. E é de facto uma indústria hereditária; e só por hereditariedade se poderia conservar tamanha perícia e perfeição". É evidente que tal teoria não tem fundamento. A hereditariedade explica pouco em matéria de culturas. Acho eu. A influência familiar, a concentração oficinal, a repetição de práticas de trabalho doméstico, os sistemas de escoamento e comercializaçãp da produção, etc, talvez expliquem mais a tradição do que a genética. Mas que a escola era transmitida de pais para filhos não há dúvida.Por isso, talvez a salvação desta, como de outras artes, seja a escola, agora, assegurar a transimssão dos saberes indispensáveis à sobrevivência. O trabalho da filigrana distingue-se de outra ourivesaria, pelo facto de a ornamentação dos objectos ser executada com um fio delgado em espirais, curvas ou ésses, preenchendo um desenho pré-determinado po fios - contornos - mais fortes. Querem que eu lhes diga? A filigrana é estrutura das asas das borboletas, feita em ouro ou prata por homens com o tempo nas pontas dos dedos. A partir do século XIX, as oficinas gondomarenses conheceram rápida expansão. Tornaram-se fornecedoras da maioria da filigrana consumida no país, em duas vertentes: a erudita (objectos requintados de grande valor - onde a inspiração indo-portuguesa é, talvez, sensível - como caixas, barcos rabelos, carros de bois, moinhos e, além de um sem número de miniaturas, as caravelas que deram a segunda volta ao mundo, desta vez nas malas dos viajantes, como prendas sumptuosas). E a vertente popular (a "obra do campo", adornos de metal precioso com que se enfeitavam - cordões, brincos, arrecadas, alfinetes, voltas - as lavadeiras. Destes enfeites, o coração é rei e símbolo de magia. Alguns serviam de pé de meia para a gente do mar). Mas, se o coração é rei, o príncipe das fantasias é o filigraneiro (homem ou mulher). Pobre príncipe. Permanece nas penumbras, enquanto a sua arte enrica o povo e vai aos salões mundanos. Pacientemente, ele enche com ténues fios, frágeis fios metálicos, torcidos e laminados, as mais variadas estruturas. Depois da montagem, faz a soldadura e o acabamento. Cuidados infinitos, mãos leves, dedos-asas num universo infinitesimal. Mãos de ourives, mexendo com a precisão do relojoeiro e a pertinácia do miniaturista; os mais velhos e mais artistas sobem os degraus do ciclo completo: fundir o metal, transformá-lo em cabelos, estruturá-los numa jóia frágil e delicada. Ou numa escultura. A filigrana não é apenas arte, é sobretudo ponderação de circunstâncias, na calma onde a pressa não tem sentido. Em 190, eram centenas de oficinas e milhares de artesãos. E agora? Agora, considerando que a sabedoria feita em série inuda os mercados, o artesanato de prestígio, individual e único, como a filigrana, terá o futuro que formos capazes de defender para ele. Brilhante? Provavelmente, mas com um plano de salvaguarda, defesa da qualidade e promoção dos criadores, formados em instituições modernas, actuantes e prestigiadas. E não em organismos burocráticos. Porque, em tempo de mudanças, o aviso fica na voz do Sr. Delfim Cardoso, filigraneiro (entrevista ao J.N. de 01.10.85 sob o título:"Filigranas: herança familiar pode morrer"): "Para se aprender esta arte, é preciso errar muito, é preciso fazer e desfazer. Ora, hoje, qual é o filigraneiro que está disposto a perder o seu tempo e o seu dinheiro para ensinar seja quem for? Claro, por isso, a transmissão desta arte tem sido de pais para filhos. Arte que devido ao aparecimento de novas profissões com melhores condições de trabalho, está a diminuir". Por quanto tempo vão os corações asas de borboleta resistir ao assédio da bugiganga?




    Agradecimentos - Revista Actualidades Concelhias Ano I - 96

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